Cinema

“Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”

Revi recentemente um dos filmes que mais me impressionaram até hoje: A cidade de Deus. O filme é baseado no livro de Paulo Lins e conta a história de um jovem pobre e negro que cresce no universo violento da favela carioca. Buscapé, interpretado por Alexandre Rodrigues, vive amedrontado com a possibilidade de se tornar um bandido, mas a sua sensibilidade e talento como fotógrafo permite-lhe seguir carreira num conceituado jornal do Rio de Janeiro. É através da câmara fotográfica que o protagonista analisa o dia a dia da Cidade de Deus.

O filme transporta o espectador para uma realidade de violência sem sentido, onde a economia informal do tráfico de droga é o único meio de subsistência para muitos da favela.

Fernando Meirelles foi buscar grande parte do seu elenco às diversas comunidades e favelas do Rio de Janeiro. Os rapazes escolhidos não tinham tido até aquele momento nenhum contacto com a arte de actuar. Esta escolha imprime no espectador a sensação de um realismo extremo.

A fotografia também é um dos factores que imprime a sensação de realidade ao filme. Sendo a história da Cidade de Deus contada em dois momentos, como é que a favela nasceu e o controle de Zé Pequeno da produção e distribuição de droga, as cores usadas para definir cada um dos tempos é genial. O retracto dos anos 50/60 através da utilização dos amarelos e dos sépias mostra o sentimento saudosista do protagonista pela época onde a violência ainda não era dona e senhora da Cidade de Deus. Já sobrevalorização das cores garridas faz referencia aos loucos anos 70, altura em que Zé Pequeno inicia a guerra pela posse total da favela.

Todos os elementos do filme, desde a escolha dos actores aos diálogos crus e simples das personagens, abrem uma janela para este mundo paralelo de violência sem sentido. Como Buscapé diz: “Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”.

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No Parque de Monsanto

No Parque de Monsanto

Olhar através da Câmara

Olhar através da Câmara

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Janela na Freguesia da Pena

Janela na Freguesia da Pena

Inspirada no trabalho de Maluda, percorro o meu caminho atenta as janelas por que passo.

Janelas do Mundo

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Quando é que se diz chega?

Tenho andado desaparecida, ou como uma amiga diz “emigrada para as terras de ninguém”. Não venho ao Botequim, não tenho fotografado, nem tão pouco escrito. Deixei de fazer as coisas que gosto, de fazer exercício, de estar descontraidamente com os amigos a deitar conversa fora ou simplesmente estar comigo mesma.

O motivo é simples, vejo-me agora no papel de cuidadora da minha avó paterna. Apesar de não estar acamada, ela precisa de ajuda com alguns aspectos na vida dela. Por isso acaba por passar grandes temporadas comigo. No meio de tantas idas aos médicos, tantas análises e tantas adaptações quer físicas quer emocionais, esqueci-me de mim. Deixei ficar para trás a minha vida. Dou por mim, a querer responder torto as pessoas que mais amo e sem ânimo para fazer o que quer que seja. Tarefas que fazia prazerosamente, são arrancadas a ferros. Sinto-me um pouco como aqueles nadadores que estão cansados e fora de pé, sinto-me a afogar nas tarefas do dia-a-dia.

Em conversa com uma amiga tive dificuldade em responder a seguinte questão: “Mesmo sabendo que não fazem por mal. Mesmo sabendo com todas as fibras do teu ser que te amam incondicionalmente, quando é que começas a dizer que já chega? Onde se encontra a fronteira da ajuda e do auto-sacrifício?” A verdade é que não soube responder.

É de facto fácil negar e dizer chega quando estamos perante alguém que nos agride ou nos trata mal. No entanto, torna-se difícil o mesmo exercício quando falamos de pessoas que amamos profundamente e que nos amam na mesma medida.

Eu estou feliz por poder acompanhar a minha avó. Quero aproveita-la ao máximo e contribuir para a sua felicidade no outono da vida dela. Mas foi difícil reconhecer que se eu não viver a minha vida, não o poderei fazer da melhor forma. Negar-me, negar a minha vida e os meus projectos em prol do outro, só tem como resultado insatisfação e frustração. São roubados sorrisos, e partilhas importantes, tanto para mim como para os que me rodeiam. No fundo não queria admitir que me sentia assim, com medo de ser incompreendida. Com medo de que eu não estivesse a dar o amor e o carinho que a minha avó merece.

A resposta torna-se agora evidente: A fronteira entre a ajuda e o auto-sacrifício, está no equilibro e na partilha de tarefas. No viver a minha vida cercando quem precisa, de amor e felicidade. Na dádiva ao outro sem roubar à minha vida o alimento de que necessito para viver e ficar bem.

A verdade é esta: os cuidadores também precisam de ajuda. E se é necessário uma aldeia para criar uma criança, também é necessário uma aldeia para cuidar de quem amamos quando eles precisam.

by AandLBanners

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Janela na freguesia da Pena - Lisboa

Janela na freguesia da Pena – Lisboa

Inspirada no trabalho de Maluda, percorro o meu caminho atenta as janelas por que passo.

Janelas do Mundo

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